A fila do correio

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A fila do correio. Agradavelmente depressiva. O idoso que esquecera a razão de estar ali: resmungava baixinho, olhando contas e papéis e cartas e tudo mais que pudesse render razão para estar ali. Logo ao lado, a velha maluca. Velha e maluca. Com dois crucifixos enrolados em um barbante vagabundo de algodão. Gorro de lenhador. Imediata a mirífica loira. Cheirosa, muito bem arrumada.

Sussurrando uma briga ao telefone. Embate de divórcio, marido americano no tapa da guarda da filha para o dia de Ação de Graças. O homem bem vestido juntou a fila peculiar. Em um terno alinhado, dos sapatos brilhosos como uma pena de um tordo recém salivada.

A louca começou a bater, ritmada, nos envelopes da prateleira com os crucifixos amarrados. Um de costas ao outro. Empunhava pelas cabeças, usando os braços como guarda-mão nos ataques aleatórios.

O velho derrubou toda a papelada das mãos, esqueceu que estava segurando alguma coisa ao que parece.

A loira desligou o telefone e começou a soluçar. Bem que tentou mas não conseguia se conter.

O relógio que chama para o guichê apitou. A velha e maluca pulou a frente do idoso, mostrou-lhe um dedo do meio e mandou-lhe às trevas. Repetiu o gesto para o relógio que apitou. O idoso pisou os papéis. Esqueceu mesmo o que carregava. “Velha doidivanas, eu hein.”

A loira avermelhou o nariz em um choramingo silencioso. O homem do terno impecável deu-lhe um lenço — com um pequeno bordado ornato a capricho—como se fosse um parceiro de cela na partilha do cigarro barato sem filtro em um banho de sol invernado. Ela sorriu com os olhos e enxugou as lágrimas com palpadas delicadas. “É muito desumano isso” Concordamos todos da fila, com os olhos e com as cabeças como se compadecer amenizasse a dor ali sentida.

Juntei os papéis para o idoso. “Não, obrigado, já tenho esses formulários” “São seus, o senhor derrubou agora a pouco” “Os meus estão aqui. Ué, cadê meus papéis? Ah, estavam contigo. Obrigado.”

A loira usa botas de montaria. Calças dentro dos canos. Jaqueta de couro envelhecido, marrom. Passeia lentamente com seus dedos por cartões de aniversário aleatórios na prateleira que a velha louca acabara de surrar com os Cristos amarrados. Arruma e emparelha tudo. Ordena por cor do envelope. E faz isso tudo com a cabeça a mil milhas náuticas rumando babordo ao Maine.

O guichê me chama.

Pago um selo e posto uma carta.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>