A difusora do interior

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A rádio era pequenina, mas a audiência, enorme. E isso porque o radialista era muito carismático. Dia desses, preparou-se para a previsão do tempo. Como sempre fazia, olhou o “galinho do tempo” que mudava de cor de acordo com a umidade, aferiu o termômetro de mercúrio vermelho que nunca se mexia e deu uma espiadinha pela janela:

— E você que vai sair de casa hoje, prepare o guarda-chuva e as galochas: dezoito graus, muita umidade no ar e chove torrencialmente na cidade! — Falava puxando os dois érres do “torrencialmente”, parecendo carro velho enroscando a marcha.

Deixou tocar uma música, preparou o café e o telefone tocou insistentemente.

Terminou a música, o radialista entrou:

— Ratificando minha gente: calorzinho lá fora, sol de rachar. A chuva era a Zulmira, lavando a janela.

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Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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