A cruviana

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O caixeiro catinguento do eslaque listra de giz atardeceu na comunidade sem ter para onde ir. Da sua vemaguete três-tempos não conseguiria viajar sem antes comprar alguns galães de gasolina no recôncavo do coronel. Mas fecha cedo e cadê os culhões para importuná-lo essa hora da noite?

Resolveu pedir arrego a um tal João Cacheado, cabroche pernóstico e contador de histórias antigas, da Vila Desperado. Vendeu a João revórve, espuleta e radinho caboclo, não o daria pouso? João era sagaz e matrecolejante, tinha salinha de estudo com numerosas estantes tortas da meia-cana, abarrotadas de livros certamente preciosos, com admiráveis encardenações de lombada em relevo americano. E falava pelos catovelos astúcias de contos letrados que de vida os formavam.

É claro que dessa conversaiada toda o tempo comeu dois quintos da noite adentro. O catinguento caixeiro assoprou o fio de luz do candeeiro com o boa-noite de João. Cresceu a noite, e a vigília dos olhos do caixeiro cada vez mais acesa; sem dormir, sonhou as letradas palavras viventes do homem que o contara.

Vento dali, cruviana que assobia em riba das telhas, catucou o caixeiro de fianco pelas tramas da rede balangandã. E cruviana não se vê, se sente. Era já a terceira ou quarta cantata de galos e o ventil o beliscou as bochechas.

Amanheceu, o caixeiro acordou com as juntas ardidas de frio, tremelequento que só ele. João Cacheado, que levantou cedo para o café coar, encontrou o caixeiro picando fumo na mão: “Cedo, caixero?” “Nada, cruviana me atacou.” “Cruviana tava é presa!” “Nada! no solsaio da baticum lá veio ela e crau nas minhas ventas!” “Machucou?” “Nem, só gelou minha espinhéla.” “Vou descer de pau essa vagabunda!”

Para o caixeiro, a cruviana era só um soprão frio — desses que vem do sul — que o catou de supetão. Para João Cacheado, apenas uma cadela desdentada e descaderada de briga de cio.

Tanto fez, tanto faz, desta desencontrura de informações, nem caixeiro, nem Cacheado fizeram-se entender.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.