A casa de campo

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Ainda é entardecer de novembro. Pôr-do-sol de domingo. Sol das cinco da tarde, perfeito para um dia de espera. Dia com cores quentes. Saudade de você. Banho tomado, sabonete de erva-doce para acalmar. Perfume dispersado em uma névoa sobre o corpo.

Roupa leve. Levemente maior para provocar. Tecido cru, decote delicioso, cabelo molhado, comprido e cheiroso.

A mesa de chá está no pequeno mezanino de madeira. Toalha branquíssima e rendada. Vaso de flores diversas, bem campezinas. Hum, dois guardanapos de linho branco com uma aliança de ouro em cada um. Alianças de ouro? É pedido de casamento então!

Ele chega exausto. Ainda gosta das meninices de bicicletas, trilhas e barro. Banho demorado, direito à barba feita e roupas brancas? Sim, combinaram até nas roupas!

Xícara de porcelana fina. Chá de maçã que embaça a baixela. alguns croutons recém saídos do forno. Guarnição leve para um fim de tarde amarelecido pelo sol.

Era a felicidade em uma brisa deliciosa pela grande janela envidraçada.

Chá? Sim, adoro seu chá. E falava isso como se aquele chá fosse inédito. Era maçã, apenas. Pequeninas torradinhas, um naco aqui, como foi seu passeio de bicicleta?

Ah, como contava com empolgação! Menino ainda, sem dúvidas. Descuidou, deixou uma pequenina gota de chá escorrer do canto da boca. E aí aquele guardanapo de linho, até então intocado, parou-o no tempo.

Alianças? Sim, seu nome dentro desta aqui. Meu nome nesta aqui.

E não foi o guardanapo que secou aquela gota de chá, não se engane. Foram os lábios mais suculentos e sedentos de um amor que, delicados, passearam por toda a boca. Lábios de uma dama recatada e cheia de boas maneiras, não esqueça.

Alianças que ele planejara comprar há tempos. Atônito. Mais chá, meu amor? Caramba, era para eu comprar essas alianças!

E aquele momento foi descrito como um vinho de bom rótulo e excelente aroma, frutado, de notas almiscaradas, sem freios nem pudor. Vinho sem freios nem pudor? Goût de tapis ainda vai, mas despudorado? Outro beijo inevitável, sabor maçã. Notas amendoadas?

Um perfeito chá das cinco que nunca teve um fim ao certo. Colocou a aliança no dedo de sua amada. Casa comigo? Sim e você? Colocou aliança no dedo daquele homem.

Ela cerra os olhos, aspira longamente o momento e sucumbe aos desejos explícitos daquele amor indelével. Perceba que uma mulher assim, toda delicada, quando sucumbe aos seus puros desejos mais íntimos, transforma-se em uma perfeita deusa sedutora. Nada a impede. Tudo conspira à favor.

Perderam os freios. E aquelas roupas branquinhas agora fazem parte da decoração de um piso de madeira do mezanino de chá. No sofá dois amantes vulneráveis aos sentidos mais quentes. Ainda eram beijos carregados. Mãos comportadas. Não por muito tempo.

Pele deliciosa e aromas, ora perfume, ora tez de uma mulher ávida. E o que fizeram naquele sofá, naquele final de tarde de um novembro adomingado pelo sol, só ele e ela, que aparentemente estavam sem freios, lembrarão. Ele se recordará da insensatez e da volúpia que tomou conta daquela acatada fêmea. Ela, de como um homem tão recatado pode ser devasso e viril. Sonhos para lembrar, por supuesto.

Quem sabe viver um sonho seja uma arte. L’art de mise en scène, l’art de recevoir?

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

0 comentários

  1. Mágico!!! Como diria o São Pedro, “é cinematográfico”. Estou sem palavras – como dá praperceber pelo comment – mas repleto de admiração pelo místico uso das palavras que acabo de ler. Demais…

  2. Puro deleite para os sentidos é este post! Ele tem cheiro, gosto, textura, cor…e som de vida plena.
    E viver tais sonhos é certamente uma arte. A arte de amar sem reservas ou receios, de se entregar pelo simples prazer de se doar.

  3. Cinematográfico. Me remete as minhas próprias tentativas de revestir com arte alguns momentos meus e dela. Às vezes me sinto mesmo num filme: um calor danado, um ventilador de teto, a penumbra, a pele úmida…e estou em Saigon durante a guerra… ou na Índia do Afinador de Pianos. E por aí vai.

  4. O blog esta cada dia melhor, sem dúvidas… mas ter vivido esse momento que você descreveu, não tem cometários… mágico 😉 e só passou essa magia porque você usa as palavras muito bem..
    Beijos :*

  5. A espera relatada com as cores de todos os sentidos. Gosto, cheiros…todos os desvarios da espera. E da paixão. Vim conhecer teu canto, trazida não sei por que ventos. E gostei, gostei tanto do teu ópio, poesia que embriaga os sentidos. se puder e quiser, vem conhcer Meu porto. Será, para mim, uma alegria.