A capital do anonimato

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Sair de uma pacata cidade com pouco mais de quinze mil habitantes para uma capital de sete milhões definitivamente foi uma aventura de vida. Giancarlo retornara para o interior, com estudos completos e exercendo uma profissão liberal. Gianlucca estava no último ano de direito e morava com um colega.

Lembro-me claramente do domingo à noite, dia em que meus pais retornariam para o interior. Levei-os até a garagem, dei um beijo de despedida em cada um. Entraram no carro e foram embora. Pronto, estava sozinho. Sozinho em uma capital, com uma vida para cuidar.

E morar só em um apartamento era perturbador. O silêncio e a liberdade muitas vezes me sufocavam.

Foi assim que conheci as artimanhas da vida de solteiro. E cuidar de todas as tarefas da casa, suprimentos, dispensa, limpeza e contas realmente ainda não estava em meus planos. Descobri os segredos de culinária unitária, a pastilha setzer para limpeza de sanitas, roupas penduradas em cabides no banheiro para o vapor desamassá-las.

O melhor era a facilidade de andar pelado pela casa sem preocupações.

Conheci muitos amigos no prédio. Alguns estudavam no mesmo cursinho, outros já estavam em universidades e faculdades. Com esses amigos aprendi muita coisa importante e alguns fundamentos que espero nunca usar.

Foi um ano intenso. Consegui, pela primeira vez, navegar ilicitamente na Internet pela RNP da universidade federal. Conheci o anonimato de andar por semanas e semanas nas ruas e não avistar um conhecido sequer. Vivi a adrenalina de ser assaltado por um moleque de doze anos e constatar que o revólver dele tinha todas as balas no tambor. Achei dinheiro no chão e fiz festa de aniversário regada a uisque importado. Fui à shows de rock gigantescos, levei geral da polícia, entrei em arrastão de torcida organizada em saída de estádio, conheci mulheres descartáveis e levianas.

Morar em uma capital abriu meus olhos para a outra extremidade social, até então monótona e simples de vida interiorana. E percebi, tardiamente, que minha vida era pequenina para um mundo demasiado real.

Senti falta do meu mundo pela primeira vez.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

0 comentários

  1. teus textos me fazem sentir tão absolutamente humana…
    apesar de ter sido totalmente fissurada pelo ópio, a ausência daquela base verde-excreta deixa tudo mais, ãhn… vivo 😀
    e como apreciadora da arte de fotografar, devo elogiar teus ensaios, também 🙂
    o menino que não existe existe sim, é só procurar por ele dentro de nós.

    esse blog me faz muito bem, graaatz :B