Briga

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Uma coisa que sempre assegurou minha integridade física nos tempos de colégio foi a avantajada estatura de italiano carcamano. Eu era o maior da turma e isso deixava espaço para pensar em outras coisas, nunca em brigas ou desentendimentos com outros colegas.

Namorar, por exemplo.

Enquanto aquele bando de moleques — uns vinte de cada lado — corriam atrás de uma bola ovalada e encardida na quadra poliesportiva eu estava com minha namoradinha recém conquistada em uma peça de teatro nada fiel ao roteiro. E é claro que em alguns momentos eu estava correndo atrás da bola e ela jogando um volei. Ma a maioria do tempo, cumpríamos nossos papéis conjugais.

Eu adorava beijar a Janaína. Era uma experiência difente, descobri que o primeiro beijo da menina fôra meu primeiro beijo. E o segundo e o terceiro.

Os intervalos de aula no colégio definitivamente era onde o estado social de cada aluno era construído. Amigos, namoradas, poder, liderança. Lembro-me claramente dos que conquistavam tudo isso com carisma, com humor, com a força.

E lembro claramente do dia em que eu tive que usar a força para assegurar minha posição e não perder a “hombridade” perante uma namorada.

Eu brincava de dar soco com o Ricardo, um colega que praticamente conheci na maternidade. E como dois chimpanzés na puberdade, vivíamos pegando o outro desprevinido com essas brincadeiras. Ricardo estudava em outra classe. E naquele ano, um cara meio estranho ingressou na classe de Ricardo. Eles conversaram algumas vezes, mas nada que afetasse a distância entre ser amigo e ser apenas conhecido.

Ricardo passou perto de mim, desprevinido. É claro que levou uma bifa no braço. Ele parou para conversar, a gente estava tramando uma descida de bicicleta por umas trilhas no meio do mato. Acontece que esse cara que era novo no colégio presumiu que eu tinha batido de verdade no Ricardo. Parou na minha frente, interrompendo nossa conversa. Ele era menor que eu. Bem menor. Magrinho, franzino e feio. Pegou pela gola da minha jaqueta e perguntou se eu não percebia a idiotice que acabara de fazer.

E é claro que nesses 5 segundos da ação do magrélo o colégio inteiro juntou-se à nossa volta. Não se pode brigar nas dependências de colégio, então algum doido da multidão exclamou: “Briga na saída moçada!” Todos hurraram como medievais. Ele se afastou, mas sem antes selar aquilo com um “Espero na esquina de baixo.”

Pronto. Minha honra posta em cheque. Praticamente todos já sabiam da picuínha, inclusive Janaína. Ela veio conversar comigo, estava preocupada. Sabia que eu não teria desvio de caráter e sabia que eu nunca brigaria por nada. Meus irmãos mais velhos, maiores e mais fortes que eu martelavam táticas de guerrilha para eu acabar com o desafiante. Fecharam a conversa antes das duas ultimas aulas com um “Se você apanhar, a gente bate nele.”

As duas aulas que se passaram foram aterrorizantes. Não era medo da briga, não era saber se apanharia ou não. Era questão da agressão e da quebra de algumas premissas que sempre tive.

Meio-dia. Cena de faroeste na rua. Centenas de estudantes exaltados, a esquina lotada. Ele estava lá, esperando. Meus irmãos em pontos estratégicos. Parei diante do rapaz. Aquela cara fechada fez eu sentir a raiva dele nos olhos. Uma coisa imcompreensível, e até hoje não entendi toda a revolta.

“O que acha de apertarmos as mãos? Assim não teremos problemas mais.” E falei isso de todo o coração. O rapaz jogou a mochila no chão, tirou sua jaqueta. Pronto. Jogar a mochila no chão é um insulto ao desafiado. Coloquei minha malinha subaqueira no chão. Ele não queria conversa mesmo. E tanto que não queria conversa que deu-me um chute na bunda. Um chutinho fraco, provocador. Eu ainda não brigaria. Mas aquele chute encheu os olhos do público e aí já viu… o cara ficou todo cheio de si! Montou posição de guarda com as mãos. Desviei meu olhar para Janaína, gesticulei com as mãos em sinal de interrogação, ela não sabia o que responder. Era uma cena estranha. Aí não deu outra, o rapazinho avançou para cima de mim. Eu iria levar um soco se não fizesse nada. Juntei os dedos da mão esquerda. Apertei-os com toda a força e esperei. Ele era ansioso demais. E isso que o derrubou.

Na verdade o que derrubou aquele saco de ossos foi um soco no meio da fuça. Um soco com tanta força que ele cambaleou uns cinco ou seis passos para trás antes de cair atordoado. Foi nocaute propriamente dito. Sangrou-lhe o nariz, um olho começou a inchar.

Na hora parti para cima dele, queria saber se estava tudo bem. Aquele nariz não parava de sangrar, ele não conseguia ficar em pé. Foi horrivel. Horrível e engraçado, pois me preocupei mais com ele do que com meu dedo médio que havia trincado. Ajudei-o a ficar em pé e recostar-se no muro. Todos ali estavam estasiados com a potência da bifa. Janaína veio ao meu lado. Ela sabia que não teve outro jeito. “Podia ter batido com menos força, né!” Ela deu o lenço de bolso para o rapaz estancar o vazamento. E foi aí que tudo voltou ao normal: ele olhou para mim e mandou um “Ei cara, foi mal viu!”

Apertamos as mãos. Final de briga. Segui embora de mãos dadas com Janaína, escoltado pelos meus irmãos. Giancarlo resmungava da brevidade da situação. Gianlucca dizia que o magrélo ainda iria revidar aquilo. Ela só me olhava de canto de olho.

Eu sabia que ela não esperava nada daquilo.

No final das contas levei uma advertência escrita por briga nas cercanias do colégio, uma radiografia da mão e talinha de alumínio por 45 dias para cicatrizar a fissura na falange media do terceiro distal da mão esquerda.

Algumas coisas que ficaram: Nunca mais briguei no colégio. A fama daquele único soco ficou. Aquele moleque nunca mais chegou perto de mim. O Ricardo continua meu amigo até hoje. E não me orgulho desse episódio. Não acrescentou em nada.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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