A morte que te espreita

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Ele não sabe bem o porquê de estar de joelhos naquela travessa estreita. O chão úmido reflete algumas luzes difusas das vitrines de roupas cafonas. Uma atraente garota caminha em direção oposta. Não desvia o olhar em nenhum momento. Ela tem um sorriso gostoso, seus dentes são alinhados, não têm pontas os seus caninos.

Os olhos pesam, a respiração dificulta. Pensamentos claustrofobicos e presos. Não sabe que tem de morrer agora. Não sabe nem se isso é morte ou fraqueza.

As luzes das vitrines apagam-se, uma a uma. Uma pesada e negra nuvem encobre a lua. Os poucos e fracos postes apagam-se. Silêncio. Inércia. Estabilidade. Escuridão.

Morrera de joelhos, e nunca soube ao certo se sucumbira ao chão úmido e gelado da noite de ópio por um desatino daquela mulher de negro.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.