17 impressões de um brasileiro no Reino da Pasárgada.

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

pasargada

Na mesma linha do polêmico post de Olivier Teboul “Aquele francezinho xexelento impetulante!” “Falou mal do Brasil, desgrama!” “Tá insatisfeito volta pra França, subaquento!” resolvi escrever sobre as estranhisses que encontrei quando mudei para o Reino da Pasárgada, um pequenino principado nas entranhas da Europa.

Ao contrário do que muita gente afirma, O Reino de Pasárgada muito difere da pitoresca e histórica cidade persa Pasárgada (پاسارگاد) e nada mais, além do nome, tem em comum. Situado nas bordas fronteiriças da Austria, Alemanha e Itália, teve como grande mola locomotora da própria independência o reinado vizinho de Liechtenstein nos anos 20. A União Européia faz beicinho e ainda não reconhece o reinado.

Mas isso pouco importa, uma vez que nosso rei (três-vivas!) é um camarada alvissareiro e bonachão.

Chega de lenga-lenga e vamos as vias de fato: 17 itens, não precisamos de mais, oras.

  1. Aqui na Pasárgada qualquer um pode ser amigo do Rei; para isto basta preencher um formulário (um pouco burocrático, admito), autenticar, reconhecer firma em três vias e aguardar a entrevista com Sua Majestade. Pouquíssimas pessoas tiveram o pedido de amizade negado por motivos tórpes (pedantes, arrogantes, brevenetas e comentadores de YouTube)
  2. Muitas mulheres. Pense em um país com os maiores índices de femina per homo: 38:1 de ratio. Elas são lindas, vistosas, bem nutridas, com excelentes braços de bater polenta e o melhor: receptivas e cortejáveis.
  3. Existem camas públicas em muitos lugares da cidade. Higienizadas, com lençóis de godón egipto trezentas fils. Trocados a cada deitada na cama. Esse costume remete aos antigos espanhóis que sentaram praça no reinado, a convite do Rei, nos anos 20.
  4. Ninguém é feliz. Apesar de termos camas públicas e mulheres a mil, ninguém é, de fato, apenas feliz com isso. O ar blasé denota um “estou apenas respirando” tão enfadonho que muita gente morre sem nem saber do que morreu.
  5. A existência aqui é uma aventura. Enquanto alguns morrem assim, do nada, outros aventuram-se mais que Munchausen em seu balão. Outros mais, por incrível que pareça, aventuram-se de um modo tão inconsequente que, na boca miúda, os comparam com a rainha espanhola Joana (a louca-demente-senil, contraparente da nora que nunca tive, dessas mulheres todas do item #2)
  6. Em Pasárgada não existem academias de ginástica particulares. Tudo é mantido pelo governo, de graça. Qualquer um pode fazer ginástica ou pilates em qualquer um dos centros da boa-vida.
  7. Tal e qual a vizinha Holanda, todo mundo aqui se move com bicicletas, também subsidiadas pelo governo. Engarrafamento aqui é mais interessante pois há a possibilidade do flirt com aquela cocótinha da bici veloce estagnada ao seu lado. Há de se sentir até o perfume do pedacinho de mau-caminho.
  8. Todo país tem esporte estranho. Pasárgada — como não poderia deixar de ser — tem o festival anual de montaria em burro-brabo. Tipo um rodeio, com zurridos aos relinchos de cabalos saltitantes.
  9. Outro esporte catatónico: campeonato de escalada em pau-de-sebo. Popular deveras, também pudera: no alto, como prenda, uma china de vestido de seda.
  10. As praias aqui são belíssimas. O mar, mesmo em um país encalacrado no meio dos Alpes, é lindo. Todo mundo, no verão, reúne-se ao final do dia para um despretensioso banho de mar.
  11. Quando a rotina aperta, o trabalho sufoca e o camarada bufa-a-estafa é de bom grado deitar-se na beira do rio que corta a cidade em norte-sul. Pouco caudaloso e de águas claras-transparentes, há quem diga que aquela água ali é potável em seu mais puro estado.
  12. Aliás, aqui entra um parênteses muito pitoresco da vida em Pasárgada: alguns velhos sibaritas atestam que, depois de um tempo deitado perto do rio, pode-se escutar uma sereia recitar uns disparates que arrepiam a penugem nucal do amigo mais desavisado.
  13. Aqui tem tudo. É outra civilização. O sistema de saúde é completo e fornece uma gama de processos seguros contraceptivos (talvez um remoto lembrete figurativo do item #2. Ah, item dois…)
  14. O sistema de telefonia, desenvolvido por japoneses revoltados com a precariedade nipônica, é automático e completo. Em qualquer ponto de Pasárgada o sinal de aparelhos bate todos-pauzinhos-cheios, o wi-fi não tem senha e a internet é sempre duas vezes mais rápida do que você precisa. E, como de costume, tudo de graça.
  15. Uma das coisas mais estranhas e polêmicas no reino são os pontos de uso controlado de alcalóides. Nada muito barra pesada, por incrível que pareça. Chamados de ‘Alcalopoints’, estes centros contam com registro de usuários, demonstração para curiosos, descriminalização do uso, médicos, enfermeiras e psicólogos e o mais importante: materiais descartáveis para o uso seguro. As drogas mais comuns nos pontos são cafeína (a tia do café faz um expresso que deixa o vivente acordado por 4 dias), cocaína em pó, ópio para caximbas, gotinhas de belladonna de jaborandi, morfina injetável para doentes crónicos, heroína para os junkies terminais, chá de gogomelo, e almíscar de musaranho-almiscarado, para cheiro e deleite. Tudo é livre e a vontade.
  16. Outra polêmica do reinado á a regularização da prostituinte. A atividade é regulamentada, tem sindicato e as mulheres obrigatoriamente precisam ser dotadas de beleza exuberante. O rei, aquele bonachão (mas que de bocó não tem nada) obrigou em um concílio real, a ‘beleza mandatória’, consentindo a desculpa de que “prostituta têm que ser sonho de consumo e realização de fantasia”. Inclusive algumas casas contam com pacotes “namoro”, onde se pode locar uma mulher por períodos determinados, como acompanhante de namoricos e disparates. Então tá.
  17. Um fator decisivo e curioso para quem vive aqui em Pasárgada é a auto-cura depressiva. Quando se está triste, mas triste de não ter jeito, dessas tristezas que, dependendo da noite, dá vontade de se matar, a gente apenas lembra “Ah, sou amigo do Rei! Que se dane tudo! Posso deitar com as mulheres que quero, nas camas que a meu bem viver, escolherei!” E assim, sem mais nem menos, essa depressão toda que acomede qualquer um que tenha um fraquejo falseta no coração se transforma no mais pueril deleite de vislumbre vivencial.

Venha embora para a Pasárgada. Mas não se esqueça que os agentes-de-fronteira pasargadeanos tem o costume da degola-por-cimitarra para imigrantes ilegais.

Pouco risco para tamanha bonança, convenhamos.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>